Chegou até a beira escorregadia do lago, olhou para aquela realidade flutuante, desarranjada e testemunhou as ideias se afundando rumo ao limbo de uma escuridão fria enquanto deixavam na superfície o legado de suas insignificâncias.
Em um dia glacial de junho ela dançava quente e girava aqueles calores nunca conhecidos pelos amores, guardava no corpo a quentura do instante que dura enquanto se degusta as delícias mais secretas do coração.
Sobre os carros, suspensos tão perto do chão, do milagre que brota da terra que espera por seus corpos, da pressa da vida sem memória que inutilmente tenta se lembrar de si mesma.
Naquela noite escura de desalento os líderes autointitulados fomentavam a crença de que cada seguidor tinha uma luz adormecida dentro de si, que para despertá-la bastava ter consciência disso e nunca se esquecer da condição de ser um cordeiro manso, sugestionável e agradecido.
No deserto de luz as vidas buscavam sentido com um ritmo autômato, dispensavam os roteiros sem limite do coração para perseguirem os conceitos que as tornassem seguras com as palavras que aprisionam o pensamento e reiteram a aparência emancipada que se ostenta no script grafado sob o título de liberdade.
Era preciso representar para brincar com as ferramentas da alegria, brilhar os olhos e exibir um sorriso endurecido que pudesse aparentar satisfação com o viver entre aqueles deleites terrenos legendados como coisas do outro mundo. Era preciso não ser, experimentar a existência do modo como não se é sob o risco de ser e não encontrar nada lá.
Enquanto os seres se matavam nos arredores do oásis, o busto vigiava sereno as cores da vida, alheio às promessas que vinham do asfalto manchado de ordem e de progresso.
Levava amassados na sacola os sentidos recolhidos do viver, lembrava de cada fragmento que iria remontar naquela tarefa labiríntica de se aventurar no significado do nada.
Andou devagarinho pelo amor florescido no jardim, respirou os detalhes vibrantes de suas formas e continuou a caminhada em direção ao horizonte, à aridez sem fim da realidade.
A chuva de luz cadente molhava cada passo relutante que seguia pelo asfalto movediço, fazia o corpo se encharcar com a confusão da mente e os amores cegarem de tanto brilho.
Dentro da sala o ventilador girava em estado terminal, empurrava preguiçoso um bafo quente gomoso que vinha da noite lá de fora, onde as luzes iam embora para sempre depois de atravessarem uma senhorita diante de um orelhão de olho em suas conversas, que experimentava a festa dramática do engano e suas delícias, seus sonhos bestas e a narrativa de uma ficção mais maravilhosa da face desta terra que se desfaz e se refaz se desfazendo.
Atrás das montanhas cobertas por capoeiras, no rumo da tempestade azulada que irriga o verde dos caminhos, havia a promessa de uma sensação, de um lugar de contentamento desprovido do inesgotável querer por querer para querer.
A subida era à esquerda, com a chance concedida de se arrastar segurando nas grades brancas da paz descascada, na companhia da cor do frescor do muro e das centelhas do que ficou para trás e se fez lembrança alucinada.
Existia, dentro do tempo que continua a passar, um tempo que passava mais rápido em um espaço mágico que se mensura com números, movido por pílulas de encanto contadas ou desmedidas a gosto. Às vezes acontecia da tela apagar a tempo desse mundo acabar.
Alguém lhe disse que não era permitido estar ali, que deveria seguir viagem e levar suas vontades para longe, para algum outro lugar que fosse lugar de ninguém.
O sol se apagava como todos os dias, deixava o rastro do seu calor nas esperanças queimadas, nos destinos que iluminou e manteve acesos até a cegueira sem memória da escuridão.
Tinha uma vista privilegiada e o que o olho não via lá fora as câmeras tratavam de ver, o que as câmeras não viam a antena trazia para ver ao pé do ouvido. Quando as antenas não viam mais, lá dentro restava ver a vida toda segura entre os muros e a cerca farpada.
A rua estava em promoção, os corpos transpiravam afoitos o desencanto aos 34 ºC, passavam pelas vitrines que simulavam a neve do norte e apertavam o passo para vender a alma e poder comprar o Natal.
Na cena da cidade a realidade certeira foi-se embora com as nuvens rumo aos territórios onde tudo é provisório, relativo e a farsa do viver encontra sua coerência na propriedade inútil do dizer.
Soprou a poesia grave do trombone, marcou o tempo com as pinceladas dos outros metais e ainda se manteve de pé estremecido pela percussão. Naquele espaço o lugar mais próximo era a música.
Segurou pela última vez o gancho estragado pelo relento, aquele amparo entortado para as perspectivas vacilantes. Depois que a crença nas palavras se fez opaca, compreendeu que o amor e a falta dele são vividos em queda livre.
Na correria, no corredor, entre a arquitetura e as táticas dos aparatos armados de chumbo, desapegou de um pisante e seguiu com o outro par sem par e os pedaços das histórias que sobraram.
As antenas não transmitem o silêncio contemplativo das almas que habitam as pirâmides da cidade. Seus sinais prescrevem o barulho dos ritos que vêm de longe, capturam o sentido de coisas inacessíveis que parecem pertencer às vidas que se acabam vendo se acabarem.
Foi um certo dia, errado, sozinho, com o que era relevante esfacelado junto aos pés que insistem seguir em direção à indigência, que pisam sem equilíbrio nos sonhos vividos como realidade.
Quando vem o amor, vem desprovido de gramática e notação racional, chega sob a tutela de uma condição inominável embrulhada em um papel vistoso, num pacote insinuante à espera de um afortunado que o abra, que se disponha a conhecer o céu e os recantos mais profundos do inferno.
O lago reflete a insanidade de um calor alaranjado dissolvido barrento no dia que se vai. Até que à noite, quando não se vê mas se sente, a escuridão rascunhe os presságios do que parecia semelhante sendo diferente.
Os muros da cidade aprisionam monstros, feras e verdugos que assistem furiosos a liberdade desajeitada dos seres civilizados comprometidos com a ilusão de suas missões.
Dos estados do país, talvez Minas Gerais seja o que melhor simboliza a aspiração não concretizada da nação tupiniquim. Entre o norte e o sul, onde tudo é meio assim, meio rural, outro tanto urbano, com uma pedra no meio do caminho, no meio de montanhas, meio perto do litoral, alguns habitantes exibem com soberba o que chamam de mineiridade, essa fábula do meio termo, do que não é bom, não é mau, apenas mineiro.