Alienar


Repousou alheio aos ventos que levam histórias, crenças e amores. Ali viveu seguro no lugar sem nada, por nada, para nada.  

Noite


O silêncio é a lembrança das palavras desfeitas, o vivido barulhento tornado mudo.

Tarde


O lago reflete a insanidade de um calor alaranjado dissolvido barrento no dia que se vai. Até que à noite, quando não se vê mas se sente, a escuridão rascunhe os presságios do que parecia semelhante sendo diferente. 

Manhã


Via o mundo como uma brisa verde emoldurada. Por viver, sem ter que saber.

Espectadores


Os muros da cidade aprisionam monstros, feras e verdugos que assistem furiosos a liberdade desajeitada dos seres civilizados comprometidos com a ilusão de suas missões.

À deriva


Despertou do sonho, tropeçou na realidade e seguiu mancando por um caminho sem rota.

Fantasias


As alegrias encarceradas nos quadrados preenchidos de luz seguem as telas que piscam e reproduzem a esperança do mundo dos bits.

Volume morto


Lançou-se a viver intensamente o melhor e o pior. Era dia de racionamento.

Digitais


As coisas são as pessoas e toda pessoa carrega uma coisa com a marca daquela coisa que se é.

Rastros


À noite a cidade vive uma sinfonia sem maestro, recebe em seu palco o movimento das histórias urgentes na velocidade da luz.

Sistema


A cápsula arrastava a sua lataria, chacoalhava mentes trincadas que viam o abate pelos vidros e todo sonho que se passa e passa.

Vibrâncias


O bolor da tarde dourava as alucinações das vidas caprichosas. Era o prelúdio das lendas noturnas.

Janela


A cortina encobria florida o lado de dentro com o tecido rasgado pela cruz lá de fora.

Maquete


Ergueram o globo e o pregaram no espaço, limparam a água terrosa que escorria dos continentes, ascenderam a luz e salvaram o planeta.

Chover


Soletra a palavra para edificar o retorno, esgueira entre gotas, poças, toscas, misérias encharcadas do caminho.

Psicodália 2015

 
Apresentação da banda Somba no festival Psicodália, dia 14 de fevereiro, em Rio Negrinho, Santa Catarina.

Babel


Na sala ao lado, sobre as cabeças e suas querências, o alerta onipresente esquentava o lugar dos diálogos impossíveis.

Impressão


Os borrões espalhavam na paisagem os significados pelo infinito. Não eram isso ou aquilo, nem antes, durante e depois.

Adornos


A noite embalou reluzente as criaturas, embaçou a razão, sepultou as verdades. Todos sobreviveram.

Relógio


À sombra da torre e seu símbolo, os ponteiros seguiam lembrando a coisa vã cronológica até a prometida eternidade.

Aromas


No traço da terra úmida encascalhada era de esfolar os sentidos aquele perfume da luz que o filtro verde compôs.

Natal tropical


Era início de novembro e havia um papai noel coca-cola nórdico em uma marquise, próximo a lojas de temáticas africanas.

Molhar


À noite, cromática, sem opção melhor entre o pior, rumou pelo asfalto besuntado com a luz respingada no aguaceiro.

Natural


Com uma febre desfocada emoldura o campo onde a vida é ela mesma, sem a palavra que a designa e seu significado castigado.

Vespertino


A tarde de luz queima o senso, faz brilhar prantos silenciosos, delírios miúdos, tudo por quase nada.

Vigiar


O olho de vidro espreita a amostra do mundo, captura o movimento dos seres previamente culpados.

Circense


Antes de se espalhar no sofá para celebrar as maravilhas de um dia produtivo, pendurou o outro rosto na parede até que as circunstâncias demandassem seu uso.

Em curso


Foi na época do inverno, quando pintaram no céu vazado pela luz a beleza provisória do instante que não volta nunca mais.

Sem nome


Abriu a janela sem dizer, só para ver. Abandonou a palavra gasta que destroça a garganta antes de ser dita e deixou a luz quieta iluminar o silêncio.

Urbanos


Pela cidade que impregnou o amargor nos corpos apressados com suas urgências.

Lírico


O dia se fez sonho quando a água borrou o que estava fora dela.

Passeio


Como lhe ensinaram, ao final da escadaria encontrou a redenção. Cegado pelo excesso, deu as costas e salpicou os degraus abaixo de volta ao limbo turvo.

Pausa


Era permitido sentar, lembrar a inutilidade do sentido que se atribui ao mundo e retirar os sapatos que pisam nele.

Protocolos


Prestou o favor com gentileza interessada. Aguardou a recompensa, assinou a promissória do favorecido e se lambuzou das alegrias das expectativas.

Linhas


Sombreia a Praça Sete, projeta suas curvas no coração de Belo Horizonte. Entre as avenidas Afonso Pena e Amazonas, ergue-se a lembrança edificada das montanhas do arraial feito capital das Gerais.

Poço


Até o espelho d'água a luz despencava 15 metros entre as manilhas. Das profundezas vinha a forma processada da superfície sorvida pelas entranhas do subterrâneo.

Templo


À beira do asfalto havia um posto avançado das peregrinações rumo ao sul afora, a casa de louvor dos andantes. Murmuravam da terra para clamar o céu.

Relatório


No mundo das medições, de todas as coisas numeradas, das palavras mensuradas à luz da realidade do número, só estava escrito porque era possível contar.

Roteiro


Era voluntária a busca que não acaba, um desejo transformado em outro, a vontade nunca satisfeita por aquilo que nem se sabe mais o que é. 

N'água



Histórias refletidas, contentamentos aquosos de um domingo.

Situação cadastral


O cadastro demanda o registro de outro cadastro que o comprove, um dublê. A amostragem da vida encontra a ciranda do status de serviço.

Temperaturas (II)


Em estado febril, enfeitiçado por uma suave letargia e pelas impressões desse filtro biológico de mucos e calafrios. Não havia antitérmico que bastasse.

Colorido


A história era sobre cores e o momento cândido de sua aparição. O homem da TV teimou em dizer que faria calor ou frio, chuva ou sol, quem sabe um regime de ventos, rajadas e tempestades. Desconfiada da profecia que vinha da tela, com o sonho corrompido, a garotinha perguntou ao pai porque nunca preveem o arco-íris.  

Dedicado a Marcelo Martins e sua filha Catarina