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Relógio


À sombra da torre e seu símbolo, os ponteiros seguiam lembrando a coisa vã cronológica até a prometida eternidade.

Linhas


Sombreia a Praça Sete, projeta suas curvas no coração de Belo Horizonte. Entre as avenidas Afonso Pena e Amazonas, ergue-se a lembrança edificada das montanhas do arraial feito capital das Gerais.

Templo


À beira do asfalto havia um posto avançado das peregrinações rumo ao sul afora, a casa de louvor dos andantes. Murmuravam da terra para clamar o céu.

Roteiro


Era voluntária a busca que não acaba, um desejo transformado em outro, a vontade nunca satisfeita por aquilo que nem se sabe mais o que é. 

A Cidade dos Sonhos*


Revertério institucional, escancarado, quando todo mundo se fez mídia com suas palavras, imagens, ações e sentidos ruidosos.


*título sugerido por Carlos Avelin em menção à foto

"Out There" | Paul McCartney nas Minas Gerais


O mito subiu ao palco montado no Mineirão para provocar catarse em mais de 50 mil pessoas. Sir McCartney, pequenino, envolvido por uma multidão sem fim, era o gigante pelo símbolo que é, por tudo que representa no curso da história.

Detalhes e vídeos do show no Blog do Frederico Jota

Show do Somba



Impregnadas de som, pela atmosfera que os meios técnicos dão a perceber, a forma e a luz eram o rastro da arte de quem faz música soar como música.


Tropeiro das Gerais


Por Rodrigo Andrade

Um bom amigo me encomendou um texto sobre um prato mineiro. Com sua mineira educação não estipulou prazos ou receitas, mas desde que aceitei honrado a tarefa, o tema passeia na minha cabeça. De cara disse: Feijão Tropeiro!

Queria um prato que eu adorasse já que em culinária só me inspiro a escrever do que gosto (tudo bem, quase tudo). Queria também um prato síntese de nossa cozinha, que remetesse à roça e cidade, ao antigo e contemporâneo, ou melhor, à "atemporalidade" da culinária-cultura-filosofia-sentimento mineiros.

Nosso prato-homenagem começa pelo próprio desenhar de nosso estado, tropeiro, matula de desbravadores, comida de resistência na riqueza de calorias e nutrientes, seco para ser comido a qualquer hora-lugar e "de capitão" (aos montinhos/bolinhos com a mão, de arremesso). Claro que isso é origem (às vezes revivida) e hoje nosso astro frequenta de marmitex a porcelanas.

Tudo começa com o óleo na panela (ou banha para os privilegiados) dourando e fazendo cantar cebola e alho. Afinal, alguma comida de sal mineira começa de outra forma?

Sua base, o feijão, marrom, nos leva às roças no fundo das casas de fazenda, subsistência e renda, que continua em nosso dia a dia de cidade grande mesmo com os buffets de suflês, terrines e tantas inventices importadas.

A farinha, de mandioca, o pão brasileiro. Partícipe de todas as culinárias brasis e sendo um acompanha tudo: de peixe a charque, da entrada à sobremesa, do bolo doce ao churrasco. E na nossa casa, do tutu, do pirão do surubim do São Francisco, da paçoca de carne, no prato de todo nortista, acompanhando qualquer coisa.

O porco oferece o bacon, a lingüiça e o torresmo. Quando não, também no lombo, convidado frequente do Tropeiro. A proteína mineira, de tempos em que gigolávamos mais o leite que a carne da vaca.

O ovo! Mais quintal, impossível. Cozido e em fatias, caprichosamente compondo o prato, ou em cubos no resto da confusão. Oferece um pouco mais de proteína e gordura, já que comida mineira é de sustância.

A cebolinha, enfeite só que nada! Nos lembra que temos horta e o verde tem que participar, até para cortar a maldade do resto...

E a couve que não é tropeiro, mas como goiabada e queijo, sempre juntos, mineiramente, sem se ofuscarem, complementando-se.

E, claro, a cachaça! Acompanhamento chama-fome do nosso prato. O forte álcool pedindo gordura ao paladar, lembrando-nos cana e madeira.

Quer coisa mais mineira que reunião? E o Tropeiro é isso, um pouco do tudo que temos de bom, misturado (como a gente). Em casa, no boteco, no restaurante, na feira, no Mineirão (que saudade).

Como as Minas Gerais, síntese do norte-sul-leste-oeste brasileiros, o feijão tropeiro é nossa cozinha. No fogão a lenha, a gás ou industrial. Na roça do alto da montanha, à beira da represa ou na cidade.


Música para imagens em movimento



Arnaldo Baptista improvisa ao piano trilha sonora para o filme “Viagem à Lua” (1902), de Georges Méliès.

Quase noite


A cortina da noite encobria os últimos respingos da luz do dia. Na paisagem infinita que se alinha ao horizonte, prosperam impressões que o manto do crepúsculo insinua sem revelar.

Cidade de Minas


Leveza neoclássica adornada pela ordem e pelo progresso, quando o bico de pena dos gabinetes hoje fossilizados ditavam os mandos e as benesses.

Circular



Em direção ao mesmo lugar, tentou compensar a ausência com a lembrança, mas a lembrança só trazia na memória a ausência.

Reféns


Emoldurava do lado de lá a imensidão de um buraco negro. O excesso de matéria ou a falta dela tragou os seres para trancafiá-los em suas vontades.

Voo


Suspenso pelo ar e pelo tempo do disparo, sobrevoava nas alturas, sobre contornos traçados por montanhas, trilhas e picadas, embrenhado na insolação tropical espalhada pelos vários cantos das Minas.


Locomotiva do asfalto


Escalou a montanha de aço abandonada às intempéries, e sobre a máquina constrangida, pouco à vontade como uma estátua hospedada fora dos trilhos, a tentação era dar a partida e levá-la de volta para a ferrovia.

Depois da chuva


Troços e vidas se agrupam em uma nova conformação depois da tempestade, até que os pingos e a correnteza façam repetir e reiterar esses habitats provisórios.

Simulacros natalinos


Embora as luzes proclamem algo que denominam ser espiritual, a realidade mesma das coisas não se ampara nesta luminescência eletrificada.