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Musical


Solfejos se lançavam ao teto do mundo vazado para a eternidade, enquanto o ataque da orquestra de vento preservava uma notinha da música dos corpos no instante feito de pura sensação. 

"Out There" | Paul McCartney nas Minas Gerais


O mito subiu ao palco montado no Mineirão para provocar catarse em mais de 50 mil pessoas. Sir McCartney, pequenino, envolvido por uma multidão sem fim, era o gigante pelo símbolo que é, por tudo que representa no curso da história.

Detalhes e vídeos do show no Blog do Frederico Jota

Show do Somba



Impregnadas de som, pela atmosfera que os meios técnicos dão a perceber, a forma e a luz eram o rastro da arte de quem faz música soar como música.


Música para imagens em movimento



Arnaldo Baptista improvisa ao piano trilha sonora para o filme “Viagem à Lua” (1902), de Georges Méliès.

Recepção


Show do Echo & the Bunnymen em BH. Casa com 1/3 de ocupação. No Arraial do Curral Del Rey as atrações que atravessam o Atlântico e não estão sob o regime de exaustiva exposição midiática vão encontrar esse público. Dava para matutar, nos instantes dos primeiros acordes, sobre o que Ian McCulloch sentia ao estar diante dos poucos que passaram quase duas horas com as sonoridades dos homens coelho.

Primeiro andar



Enquanto muitos se acotovelavam no térreo para assistir à apresentação das canções, ruídos e melodias de M., na sala clara do primeiro andar, entretidos em si mesmos, outros personagens teciam seus momentos de intimismo.

Lembranças, memórias e outras miudezas temporais

"O que é o tempo?
Se não me perguntam, eu sei.
Se me perguntam, já não sei".

Aurélio Agostinho


Reservei parte do domingo para revirar umas velharias que se acumularam ao longo desses anos. Criou-se uma babel de documentos e de artefatos, o caos das memórias revolvidas por essa atividade arqueológica; odores, rastros e fragmentos de toda sorte de quinquilharias, entesouradas por mania, pudor ou por um certo fetiche gratuito e inútil com a posteridade, essa vã tentativa de tornar o passado eternamente presentificado.

Não foi surpreendente deparar com objetos tidos como desaparecidos há tempos, supostamente tragados por algum buraco negro: CDs; pecinhas, pedaços e partes de coisas não mais existentes em sua totalidade; páginas datilografadas já amarelas pelo castigo do tempo; cartas manuscritas repletas de lembranças, de promessas e de doces amenidades pertencentes a um contexto tão remoto e que agora insistia em persistir diante de mim, de restaurar um estado sem sentido algum na realidade atual.

E foi entre um objeto e outro, em meio ao labirinto memorial que se formou na dispersão daquelas coisas, que encontrei um vinil cujo significado é menos resultante de seu valor estético do que da coleção de eventos que sua temporalidade faz relembrar. Lá estava, após anos de confinamento acidental, o álbum Bête Noire, de Brian Ferry, lançado em 1987. Ferry... um crooner dandi do final do século XX, remanescente do Roxy Music, uma legenda do tão desengonçadamente rotulado art rock. Uma aquisição heróica naqueles tempos sem qualquer sinal de CD, web ou mp3, quando o acesso a “objeto cultural” exigia contatos subterrâneos, saber distinguir a realidade do boato com uma investigativa pesquisa de campo, quando aquilo que desembarcava por aqui entre os trópicos assumia o caráter de uma excentricidade caprichosa.

Depois que as lembranças assumiam uma conotação nostálgica, tratei de enterrar tudo aquilo novamente. Fiquei pensando sobre uma ideia de Debray, para quem as relíquias, esses objetos que carregam uma herança memorial, não precisam ser vistos, basta que existam.

Somba: o retorno



Numa segunda-feira típica, pouco antes das 22 horas, o Somba subiu uma vez mais aos palcos daqui do Arraial. Um retorno esperado, maturado e especulado por longos e intermináveis dois anos. Uns 60 sortudos tiveram o privilégio de conhecer o “recheio da bolacha” do novíssimo e não oficialmente lançado álbum “Cuma?”.


O quarteto apresentou a versão beta do que virá ser o lançamento de “Cuma?”. Com uma complexa e enigmática parafernália tecnológica e um profundo senso de experimentalismo, o Somba deu forma a 13 canções que fundem os territórios do erudito e do popular, que celebram com humor e sem afetação o retorno do promissor laboratório sonoro iniciado anos antes, ao fim do último século. A atmosfera é francamente psicodélica.

Estilo? Ao modo da tradição sômbica, a banda se apropriou dos mais variados ritmos e modalidades musicais e concebeu um conjunto de canções muito particulares entre si. Ainda mais experimental do que “Clube da Esquina dos Aflitos”, “Cuma?” vem de um Somba motivado não apenas pelo experimento das sonoridades, mas pela experimentação estética na amplitude do termo, do estudo das possibilidades técnicas da mediação do analógico pelo digital, do turbilhão sensorial que é fazer música para que ela soe como magia.