Vespertino


A tarde de luz queima o senso, faz brilhar prantos silenciosos, delírios miúdos, tudo por quase nada.

Vigiar


O olho de vidro espreita a amostra do mundo, captura o movimento dos seres previamente culpados.

Circense


Antes de se espalhar no sofá para celebrar as maravilhas de um dia produtivo, pendurou o outro rosto na parede até que as circunstâncias demandassem seu uso.

Em curso


Foi na época do inverno, quando pintaram no céu vazado pela luz a beleza provisória do instante que não volta nunca mais.

Sem nome


Abriu a janela sem dizer, só para ver. Abandonou a palavra gasta que destroça a garganta antes de ser dita e deixou a luz quieta iluminar o silêncio.

Urbanos


Pela cidade que impregnou o amargor nos corpos apressados com suas urgências.

Lírico


O dia se fez sonho quando a água borrou o que estava fora dela.

Passeio


Como lhe ensinaram, ao final da escadaria encontrou a redenção. Cegado pelo excesso, deu as costas e salpicou os degraus abaixo de volta ao limbo turvo.

Pausa


Era permitido sentar, lembrar a inutilidade do sentido que se atribui ao mundo e retirar os sapatos que pisam nele.

Protocolos


Prestou o favor com gentileza interessada. Aguardou a recompensa, assinou a promissória do favorecido e se lambuzou das alegrias das expectativas.

Linhas


Sombreia a Praça Sete, projeta suas curvas no coração de Belo Horizonte. Entre as avenidas Afonso Pena e Amazonas, ergue-se a lembrança edificada das montanhas do arraial feito capital das Gerais.

Poço


Até o espelho d'água a luz despencava 15 metros entre as manilhas. Das profundezas vinha a forma processada da superfície sorvida pelas entranhas do subterrâneo.

Templo


À beira do asfalto havia um posto avançado das peregrinações rumo ao sul afora, a casa de louvor dos andantes. Murmuravam da terra para clamar o céu.

Relatório


No mundo das medições, de todas as coisas numeradas, das palavras mensuradas à luz da realidade do número, só estava escrito porque era possível contar.

Roteiro


Era voluntária a busca que não acaba, um desejo transformado em outro, a vontade nunca satisfeita por aquilo que nem se sabe mais o que é. 

N'água



Histórias refletidas, contentamentos aquosos de um domingo.

Situação cadastral


O cadastro demanda o registro de outro cadastro que o comprove, um dublê. A amostragem da vida encontra a ciranda do status de serviço.

Temperaturas (II)


Em estado febril, enfeitiçado por uma suave letargia e pelas impressões desse filtro biológico de mucos e calafrios. Não havia antitérmico que bastasse.

Colorido


A história era sobre cores e o momento cândido de sua aparição. O homem da TV teimou em dizer que faria calor ou frio, chuva ou sol, quem sabe um regime de ventos, rajadas e tempestades. Desconfiada da profecia que vinha da tela, com o sonho corrompido, a garotinha perguntou ao pai porque nunca preveem o arco-íris.  

Dedicado a Marcelo Martins e sua filha Catarina

Musical


Solfejos se lançavam ao teto do mundo vazado para a eternidade, enquanto o ataque da orquestra de vento preservava uma notinha da música dos corpos no instante feito de pura sensação. 

A Cidade dos Sonhos*


Revertério institucional, escancarado, quando todo mundo se fez mídia com suas palavras, imagens, ações e sentidos ruidosos.


*título sugerido por Carlos Avelin em menção à foto

Tendências


Encarcerado, espremido entre vetores
de uma agonia sinalizada.

"Out There" | Paul McCartney nas Minas Gerais


O mito subiu ao palco montado no Mineirão para provocar catarse em mais de 50 mil pessoas. Sir McCartney, pequenino, envolvido por uma multidão sem fim, era o gigante pelo símbolo que é, por tudo que representa no curso da história.

Detalhes e vídeos do show no Blog do Frederico Jota

Liberal(ismo)


Era uma linha de produção de calçados infantis. Com o talento dos adultos, logo veio o resto arruinado de uma história contada entre os retalhos e o silêncio das máquinas.

Pragmatismo


Acreditava ser possível definir escolhas por meio de esquadros. A praticidade das réguas gestava um lugar onde tudo cabe, do modo como se quer. Ensimesmado, esse mundo padrão mantém a fachada de sua integridade com a ignorância sobre as outras ferramentas dos outros mundos.

Show do Somba



Impregnadas de som, pela atmosfera que os meios técnicos dão a perceber, a forma e a luz eram o rastro da arte de quem faz música soar como música.


Sobre trilhos



Restava seguir conforme as cutucadas das impressões. Era o caso de admitir a imersão na contraditória realidade dos ditos, dos feitos e dos acontecidos. Adiante, ao fim da linha, lá estava o nada presente e figurado.

Self


Estuda o momento enquanto desliza nos próprios traços, nos rumos que são só seus.


a.m.


A insônia é por vezes uma imagem em branco, indefinida, à espera de um traço que contrarie sua tendência em permanecer inviolável até o raiar do dia.

Tropeiro das Gerais


Por Rodrigo Andrade

Um bom amigo me encomendou um texto sobre um prato mineiro. Com sua mineira educação não estipulou prazos ou receitas, mas desde que aceitei honrado a tarefa, o tema passeia na minha cabeça. De cara disse: Feijão Tropeiro!

Queria um prato que eu adorasse já que em culinária só me inspiro a escrever do que gosto (tudo bem, quase tudo). Queria também um prato síntese de nossa cozinha, que remetesse à roça e cidade, ao antigo e contemporâneo, ou melhor, à "atemporalidade" da culinária-cultura-filosofia-sentimento mineiros.

Nosso prato-homenagem começa pelo próprio desenhar de nosso estado, tropeiro, matula de desbravadores, comida de resistência na riqueza de calorias e nutrientes, seco para ser comido a qualquer hora-lugar e "de capitão" (aos montinhos/bolinhos com a mão, de arremesso). Claro que isso é origem (às vezes revivida) e hoje nosso astro frequenta de marmitex a porcelanas.

Tudo começa com o óleo na panela (ou banha para os privilegiados) dourando e fazendo cantar cebola e alho. Afinal, alguma comida de sal mineira começa de outra forma?

Sua base, o feijão, marrom, nos leva às roças no fundo das casas de fazenda, subsistência e renda, que continua em nosso dia a dia de cidade grande mesmo com os buffets de suflês, terrines e tantas inventices importadas.

A farinha, de mandioca, o pão brasileiro. Partícipe de todas as culinárias brasis e sendo um acompanha tudo: de peixe a charque, da entrada à sobremesa, do bolo doce ao churrasco. E na nossa casa, do tutu, do pirão do surubim do São Francisco, da paçoca de carne, no prato de todo nortista, acompanhando qualquer coisa.

O porco oferece o bacon, a lingüiça e o torresmo. Quando não, também no lombo, convidado frequente do Tropeiro. A proteína mineira, de tempos em que gigolávamos mais o leite que a carne da vaca.

O ovo! Mais quintal, impossível. Cozido e em fatias, caprichosamente compondo o prato, ou em cubos no resto da confusão. Oferece um pouco mais de proteína e gordura, já que comida mineira é de sustância.

A cebolinha, enfeite só que nada! Nos lembra que temos horta e o verde tem que participar, até para cortar a maldade do resto...

E a couve que não é tropeiro, mas como goiabada e queijo, sempre juntos, mineiramente, sem se ofuscarem, complementando-se.

E, claro, a cachaça! Acompanhamento chama-fome do nosso prato. O forte álcool pedindo gordura ao paladar, lembrando-nos cana e madeira.

Quer coisa mais mineira que reunião? E o Tropeiro é isso, um pouco do tudo que temos de bom, misturado (como a gente). Em casa, no boteco, no restaurante, na feira, no Mineirão (que saudade).

Como as Minas Gerais, síntese do norte-sul-leste-oeste brasileiros, o feijão tropeiro é nossa cozinha. No fogão a lenha, a gás ou industrial. Na roça do alto da montanha, à beira da represa ou na cidade.


Música para imagens em movimento



Arnaldo Baptista improvisa ao piano trilha sonora para o filme “Viagem à Lua” (1902), de Georges Méliès.

Passagem



Se a vela ao queimar dá início a sua finitude, a vida do outro inscreve sua eternidade no vivido de nós mesmos.


In Memoriam (Amaury de Castro)

Quase noite


A cortina da noite encobria os últimos respingos da luz do dia. Na paisagem infinita que se alinha ao horizonte, prosperam impressões que o manto do crepúsculo insinua sem revelar.

Monocromático


Certa vez havia um caminho com tons de cinza, sem os sinais das cores e a sua sensação festiva. No fim do trajeto era possível andar sobre os retalhos que sobraram da realidade e que nunca mais iriam se parecer com ela.  

 

Temperaturas


Na companhia do silêncio invernal do cerrado, sob a radiação dos raios dourados que esquentam os espasmos que percorrem o corpo, sua quase presença na cena muda muda tudo. 

Arquivos Imperfeitos*


No interior das memórias digitais, onde a percepção se encontra com os bits, espreita a forma do que antes era de fato forma, existe uma realidade que está fora do alcance da propriedade analógica do olhar.

            *"Arquivos Imperfeitos" é o título de um livro de Fausto Colombo

Cidade de Minas


Leveza neoclássica adornada pela ordem e pelo progresso, quando o bico de pena dos gabinetes hoje fossilizados ditavam os mandos e as benesses.

Abajur


A luz que recorta o leito está amarela como nunca. Deixa seu feixe clarear as idéias, sombrear as tentações, apresentar outra figura.

Arara Vermelha



É a exuberância das cores em um pássaro tipicamente brasileiro e que está em extinção. Percorrem os céus em duplas, são monogâmicas. É difícil crer que elas perdem a liberdade para fazer parte de mostruário ou de excentricidades bem distantes de sua terra natal e natural.



Ficção



Eram doces palavras, nos seus acentos e conotações. O espectro sonoro, o papel em branco ou a tela que exibe o verossímel atendem às maiores artes da representação. Parecia tudo bonito.

                                                                                                       Dicionário Brasileiro de Insultos é da Ateliê Editorial

Circular



Em direção ao mesmo lugar, tentou compensar a ausência com a lembrança, mas a lembrança só trazia na memória a ausência.

Ouvir


No canto do bar, com o estalar da tacada do bilhar, o silvo dos drinks nervosos, a música que realmente importa.

Reféns


Emoldurava do lado de lá a imensidão de um buraco negro. O excesso de matéria ou a falta dela tragou os seres para trancafiá-los em suas vontades.

Voo


Suspenso pelo ar e pelo tempo do disparo, sobrevoava nas alturas, sobre contornos traçados por montanhas, trilhas e picadas, embrenhado na insolação tropical espalhada pelos vários cantos das Minas.