Aromas


No traço da terra úmida encascalhada era de esfolar os sentidos aquele perfume da luz que o filtro verde compôs.

Natal tropical


Era início de novembro e havia um papai noel coca-cola nórdico em uma marquise, próximo a lojas de temáticas africanas.

Molhar


À noite, cromática, sem opção melhor entre o pior, rumou pelo asfalto besuntado com a luz respingada no aguaceiro.

Natural


Com uma febre desfocada emoldura o campo onde a vida é ela mesma, sem a palavra que a designa e seu significado castigado.

Vespertino


A tarde de luz queima o senso, faz brilhar prantos silenciosos, delírios miúdos, tudo por quase nada.

Vigiar


O olho de vidro espreita a amostra do mundo, captura o movimento dos seres previamente culpados.

Circense


Antes de se espalhar no sofá para celebrar as maravilhas de um dia produtivo, pendurou o outro rosto na parede até que as circunstâncias demandassem seu uso.

Em curso


Foi na época do inverno, quando pintaram no céu vazado pela luz a beleza provisória do instante que não volta nunca mais.

Sem nome


Abriu a janela sem dizer, só para ver. Abandonou a palavra gasta que destroça a garganta antes de ser dita e deixou a luz quieta iluminar o silêncio.

Passeio


Como lhe ensinaram, ao final da escadaria encontrou a redenção. Cegado pelo excesso, deu as costas e salpicou os degraus abaixo de volta ao limbo turvo.

Pausa


Era permitido sentar, lembrar a inutilidade do sentido que se atribui ao mundo e retirar os sapatos que pisam nele.

Protocolos


Prestou o favor com gentileza interessada. Aguardou a recompensa, assinou a promissória do favorecido e se lambuzou das alegrias das expectativas.

Linhas


Sombreia a Praça Sete, projeta suas curvas no coração de Belo Horizonte. Entre as avenidas Afonso Pena e Amazonas, ergue-se a lembrança edificada das montanhas do arraial feito capital das Gerais.

Poço


Até o espelho d'água a luz despencava 15 metros entre as manilhas. Das profundezas vinha a forma processada da superfície sorvida pelas entranhas do subterrâneo.

Templo


À beira do asfalto havia um posto avançado das peregrinações rumo ao sul afora, a casa de louvor dos andantes. Murmuravam da terra para clamar o céu.